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GRÉCIA, A PÉROLA DO MEDITERRÂNEO
- Os Persas

 

Ésquilo

 

Os Persas

 

 

Tradução de Maria José de Carvalho

 

Personagens

 

Coro, composto de anciãos, distinguidos por nascimento e mérito. Eram os

chamados fiéis.

Atossa, viúva de Dario, mãe de Xerxes.

Mensageiro

Sombra de Dario

Xerxes, rei da Pérsia, filho de Dario

 

 

A cena passa-se em Susa.

 

 

O teatro deve representar o palácio dos reis da Pérsia.

Ver-se-á, ao lado, o túmulo de Dario.

 

 

Coro

Somos, entre os persas, chamados os Fiéis. Guardiães deste rico e soberbo palácio, aqui estamos, enquanto eles marcham contra a Grécia. Foi à nossa experiência, que o filho de Dario, Xerxes, nosso rei e senhor, confiou os cuidados do império. Porém, triste pressentimento. Nossa alma inquieta-se, no íntimo, pelo regresso do rei e seu brilhante exército. A Ásia viu levar todas as suas forças, e acusa um jovem príncipe. Não chega à capital da Pérsia nenhum correio ou mensageiro. De Susa a Ecbatana, dos antigos baluartes de Ásia, infantes, cavaleiros, gente do mar – que enorme massa de exércitos, deixaram todos a pátria. Assim partiram Amistres, Artafernes, Megabises, Astaspes, príncipes dos persas, reis submissos do grande rei, comandantes de numerosas hostes, hábeis no manejo do arco e dos cavalos, temíveis no aspecto, terríveis nos combates, de insuperável coragem. Assim partiram Artembares, bravo capitão de cavalaria; Masistres, Imeu, o hábil arqueiro, Farandaces e Sostanes, que tão bem doma os corcéis. Das fecundas margens do Nilo vieram Susiscanes, Pegastagon, que o Egito viu nascer; Arsames, que governa a sagrada cidade de Menfis, e Ariomardo, senhor da antiga Tebas. Dos pântanos egípcios chegaram inúmeros, excelentes remadores. No séquito do rei marchavam os efeminados lídios e todos os povos do continente, submetidos ao sátrapa Metrágato, ao virtuoso Arceu. A opulenta Sardes viu sair do seu seio milhares de homens em carros de duplo e triplo jugo, cujo aspecto basta para fazer estremecer. Habitantes do monte sagrado de Tmolus, Mardon e Taribis, infatigáveis guerreiros, e seus núsios armados dardos, jactavam-se de que em breve a Grécia escrava se curvaria ao seu jugo. A rica Babilônia enviou tropas de toda a espécie: marujos, arqueiros, orgulhos de sua perícia. À ordem ameaçadora de seu rei, todas as nações da Ásia se armaram e o seguiram. Assim vimos partir a juventude florescente dos persas. A terra que a nutriu a lamenta e chora. Mães e esposas contam, a tremer, os dias de tão longa ausência. O exército real, que arrasa todos os baluartes, já passou para o vizinho continente. Sobre seus navios, ligados por cabos, atravessou o estreito de Heles, ficha de Atmas; indissolúvel ponte se estendeu sobre a face dos mares, que ela subjugara. Digno rebento de augusta estirpe, mortal igual aos deuses, o belicoso soberano da fecunda Ásia,

 

pleno de confiança no valor de seus intrépidos súditos, à Europa conduziu, por terra e mar esse imenso exército. Qual dragão homicida, lança olhares flamejantes. Armado de um milhão de braços, seguido de mil navios, impelindo seu carro assírio, leva contra um povo famoso por sua lança, guerreiros temíveis por suas flechas. Quem poderia enfrentar essa vaga enorme de soldados? Nenhum dique deteria a indomável torrente. Nada resistiria à bravura do persa. Mas quem, dentre os homens, evitará a insidiosa armadilha da sorte? quem dela escapará com pé ligeiro, fácil impulso? Acariciante e lisonjeira, a princípio, ela atrai os homens a uma rede da qual nenhum mortal pode desvencilhar. Há muito se manifestou a vontade do céu, que anima os persas ao assalto das torres, à tumultuosa confusão dos corcéis, à destruição das cidades. Contemplando a vasta planície dos mares escumantes ao sopro dos ventos... confiaram povos a frágeis cabos, débeis engenhos. O temor dilacera, ao imaginá-lo, minha alma angustiada. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais a imensa cidade de Susa, sem defensores, aprenda a proferir tais palavras. Ó infortunado exército dos persas. Que jamais os muros de Ássia necessitem responder ao grito de uma turba de mulheres, que em prantos, a rasgarem os seus véus. Todos, infantes, cavaleiros, como um enxame de abelhas, nas pegadas de seu príncipe, galgaram os promontórios de ambos os continentes, unidos por uma ponte. Na ausência do esposo, o pranto umedece os leitos nupciais. Desoladas esposas. Com amorosa saudade seguistes o impiedoso companheiro, que para correr às armas, vos deixou solitárias. Quanto a nós, persas fiéis, firmes neste palácio antigo, redobremos de necessária prudência e sensatez. E meditemos. Que foi feito de Xerxes, nosso rei, filho de Dario, pai tão bem amado? Caberá a vitória à flecha disparada pelo forte arco persa? Ou vencerá o brandir da acerrada lança helena? Já se adiante, porém, a mãe de Xerxes, astro semelhante ao olhar dos deuses. Adoremo-la, todos, à uma, rendamos homenagem à rainha.

 

(O Coro se prosterna. Entra a rainha em seu carro, seguida de numeroso séquito.)

 

Corifeu

Saudamos-te, ó rainha, a primeira entre as mulheres da Pérsia, mãe de Xerxes, viúva de Dario, tu que partilhaste o leito do deus dos Persas, que puseste no mundo um deus. Oxalá nossa antiga sorte possa agora também acompanhar o exército de teu filho.

Atossa

Eis porque deixo a soberba morada e o leito em que outrora recebi Dario; sinto a alma roída de cuidados. Amigos, estou, no íntimo, receosa. Nossos excessivas riquezas podem se esgotar; a base do poder que Dario, não sem a ajuda dos deuses, ergueu, pode ruir. Dupla e inexprimível inquietude me enche o coração. Tesouros sem súditos que os defendam, de nada valem; e, sem tesouros, dias não há de esplendor sem sequer para o mais forte estado. Nossas riquezas acham-se intactas; mas receio pela alma deste palácio; pois a alma de uma casa é o seu dono. Na aflição em que me encontro, aconselhai-me, ó persas, fiéis anciãos, conselho; só de vós espero palavra animadora.

Corifeu

Rainha, não duvideis; uma palavra de vós é quanto basta. De nós disponde. Estais consultando aqueles cujo coração vos pertence.

Atossa

Desde que meu filho, reunindo o exército, marchou contra a Grécia, a fim de devastá-la, todas as noites sinto o sono perturbado por terríveis sonhos; nunca, porém, nenhum me impressionou tão vivamente como o da noite passada. Ouvi: nele, duas mulheres soberbamente ataviadas, uma à moda persa, outra à maneira dória, me apareceram, ambas de estatura superior à nossa, ostentavam uma beleza sem jaça e eram visivelmente irmãs. Embora filhas do mesmo pai, designara-lhes a sorte por morada, a uma, a Grécia, a outra, a terra bárbara. Julguei ouvir entre elas uma discussão. Meu filho, advertido, correu a acalmá-las e, subjugando-as, atrelou-as ao mesmo carro. Uma orgulhosa da situação, de lábio dócil, às rédeas obedecia. Mas a outra, rebelde ao freio, empina-se, irritada, e parte com as mãos, os arreios e bridões, arrebatando o jugo. Meu filho cai. Dario, seu pai, corre a lamentá-lo e consolálo. Porém, Xerxes, ao vê-lo, começa a rasgar as vestes. Tal foi o sonho desta noite. Ao acordar, lavei as mãos em fonte pura, e, acompanhada por escravos carregados de oferendas, aproximei-me dos altares para os deuses preservadores consagrar as dádivas do seu agrado. Vi então uma águia refugiar-se na ara do sol. Aterrada, perdi a voz. Logo depois, em rápido, sobre ela se precipita um abutre, dilacerando-lhe a cabeça com as garras e, tremendo, a águia se-lhe entrega indefesa. O que vi e aqui vos conto é, sem dúvida, alarmante. Mas, afinal, a que se arrisca meu filho? Vencedor, bem o sabeis, resplandecerá de glória; vencido, a ninguém deve satisfações; e se viver reinará para sempre neste império.

Corifeu

Rainha, não queremos assustar-te, nem sossegar-te demais; vai adorar os deuses; pede-lhes que se o presságio é sinistro o afastem; se venturoso, o cumpram para teu bem, de teus filhos, do império e de todos os amigos. Ofereça, em seguida, libações à terra e aos Manes. Suplica Dario, teu esposo, que te apareceu esta noite, que te envia do seio da terra somente favoráveis augúrios para ti e teu filho; e retenha nas profundezas da noite infernal os sonhos funestos. É meu coração pressago que te aconselha.

Atossa

Benévola interpretação de meu sonho; teu zelo por meu filho e por mim é que ta inspira; que o céu te exalte. Volto a casa e, segundo tuas palavras, sacrificarei aos deuses e aos Manes que nos são caros. Entretanto, amigo, informa-me onde fica a cidade de Atenas?

Corifeu

Longe, rumo ao poente do sol nosso senhor.

Atossa

E que desejo anima meu filho a destruí-la?

Corifeu

Vencida Atenas, submeter-se-á toda a Grécia.

Atossa

É pois o exército dos atenienses?

Corifeu

Tal como é muitos males já causou ao medas.

Atossa

Tem eles recursos, riquezas suficientes?

Corifeu

Possuem uma mina de prata, tesouro da terra.

Atossa

São arcos e flechas que lhes armam as mãos?

Corifeu

Não; mas fortes espadas, firmes escudos.

Atossa

Quem é seu senhor? Quem lhes comanda o exército?

Corifeu

Não são escravos, nem súditos de ninguém.

Atossa

Como poderão resistir e enfrentar o inimigo?

Corifeu

Não destruíram, porventura, o soberbo exército de Dario?

Atossa

Triste presságio para as mães dos que partiram.

Corifeu

Em breve, creio, serás esclarecida. Alguém para cá se dirige. Pela velocidade reconheço um mensageiro persa. Boa ou má nos trará qualquer notícia.

(Entra um Mensageiro.)

Mensageiro

Ó cidades da Ásia. Ó terras da Pérsia. E tu, outrora, morada da opulência. Como pode um só golpe ofuscar tanta glória? Ceifada foi a flor dos persas. Ai de mim. Infeliz de mim que tais desgraças venho anunciar. Mas é necessário ir até o fundo dos males. Persas, foi destruído o exército dos bárbaros.

Coro

Ah, desastre irreparável, pasmoso, inaudito, inesperado. Ó triste nova. Persas, vós que escutais, derramais lágrimas. Mensageiro Tudo perdido; eu próprio, contra toda esperança, revejo o sol da pátria.

Coro

Anciãos! Vivermos tanto para conhecer na velhice tão inesperado revés. Mensageiro Eu vi, vi com meus próprios olhos todos os males; por outro não foi que os conheci.

Coro

Ó céu. Em vão contra a sagrada Grécia uniram suas armas os povos da Ásia.

Mensageiro

As praias de Salamina, os campos dos arredores, tudo está coberto dos cadáveres de nossos soldados miseravelmente mortos.

Coro

Ah, deuses. Dos nossos mortos os corpos ensangüentados erram pelas praias do estreito, ao sabor das ondas, por entre os destroços flutuantes dos navios.

Mensageiro

Não nos defenderam as flechas; e o exército inteiro pereceu; a frota não pode agüentar a impetuosa abordagem do inimigo.

Coro

Lancemos pungentes, desolados gritos; choraremos o destino os persas; seu exército destruído, sua irremediável desgraça.

Mensageiro

Ó Salamina! Nome execrável. Ó Atenas! Que lágrimas e que amargura me custa a tua lembrança.

Coro

Atenas é impiedosa para com os inimigos. Quantas mulheres, já agora, na Pérsia, terão que lhe reclamar seus esposos e filhos.

Atossa

Petrificada, esmagada ao peso de tal infortúnio, falta-me a fala, não posso interrogar esse soldado. Todavia, quando os deuses ordenam, aos mortais só resta sofrer os desígnios da divina vontade. Recupera-te; embora derrame lágrimas ao narrá-lo, conta-nos todo o nosso infortúnio. Que capitães ainda vivem? Quais os reis que devemos chorar? Quais o que a morte força a abandonar a um só tempo o cetro e o posto?

Mensageiro

Xerxes respira e vê a luz do dia.

Atossa

Ah, com que claridade me inundas. Resplandece o dia após a mais tenebrosa noite.

Mensageiro

Porem, Artembares, capitão de dez mil cavaleiros, flutua entre os escarpados escolhos de Silene. Dadaces, o mandante de mil homens, foi derrubado com um golpe de lança. Tenagon, o mais valoroso dos bactrianos, ficou nas praias de Salamina. Lileu, Arsanes, Argestes, os três, nessa ilha que alimenta os pássaros de Vênus, foram despedaçados de encontro às rochas. Areteu, vindo das vizinhanças das cabeceiras do Nilo, Adeves, Feresseves e Farnuco tombaram todos do mesmo navio; Matalus, de Crisa, o capitão dos trinta mil ginetes montados em cavalos negros, está morto. Seu sangue, a jorrarlhe pelo queixo e pela espessa barba ruiva, banhava-o de púrpura. O mago Arabus e Aretames, o bactriano, jazerão eternamente em solo inimigo. Assim também, Anfistreu, de tão temível lança, o bravo Ariomardo, cuja morte encherá Sardes de luto, e Sasames, o mísio. Taríbis de Lienesso, o belo Taríbis, almirante de duzentos e cinqüenta navios, já não existe; infortunado, pereceu deploravelmente. Sienesis, porém, o p’rincipe da Cilícia, morreu com glória, após causar grande estrago ao inimigo. Eis os nomes que recordo; mas representam apenas a menor parte das perdas.

Atossa

Ai de mim. Que ouço. Que horrendas desgraças. Vergonha e motivo de pranto. Prossegue,

mensageiro.

Quanto navios tinham os gregos para ousar abordar a frota persa?

Mensageiro Quanto ao número podes ter certeza de que o nosso era muito superior. Os gregos tinham apenas trezentos navios, dos quais dez constituíam um corpo de reserva. Zerxes tinha mil, sem contar duzentos e sete dos mais velozes veleiros. Essa é a verdade. Não foi pois a quantidade que nos faltou. Mas um deus cruel nossos destinos pesou em balança desigual e destruiu o exército. Os deuses protegem a cidade de Palas. Atossa Assim, pois, a cidade de Atenas permanece intacta? Mensageiro O valor de seus homens ergueu diante dela inexpugnável baluarte. Atossa Mas quem começou o ataque? Os gregos? Ou meu filho, por demais confiante na superioridade de sua esquadra?

Mensageiro

Ó rainha. Um invejoso demônio, um gênio fatal foi ao tudo a causa. Um soldado do exército ateniense fora dizer a teu filho que nem bem as sombras da noite descessem, os gregos, não mais ousando enfrentá-lo, retirando-se em silêncio, procurariam separadamente salvar-se, fugindo. Xerxes ordenou, pois a seus generais, que apenas o sol deixasse de iluminar a terra com seus raios e as trevas obscurecessem a abóbada celeste, fechassem as passagens e estreitos com três linhas de navios, e cada chefe responderia por sua cabeça: tais as ordens que ele, confiante, dera; não sabia o que lhe reservavam os deuses. Obedientes, as tropas fazem tranqüilamente a sua refeição, enquanto os marujos dispõem os remos junto aos barcos. Assim que os raios solares se apagaram abrindo lugar às trevas, todos, remadores e soldados, dirigem-se a seus postos; e os navios se colocam segundo a ordem recebida. Durante toda a noite, a frota, disposta pelos chefes, guarda cuidadosamente a passagem. Escoa-se o tempo, nenhum dos gregos tenta fugir. Mas apenas a aurora, no seu carro luminoso, seus clarões sobre a terra espalha, ouvem-se tons moduladosos de festivo toque e um canto de guerra repetido pelo eco dos penhascos. Os persas, ludibriados em sua expectativa, horripilam-se: o hino entoado pelos gregos não era de retirada, porém de estímulo ao combate. O som da trombeta inflamava-lhes a coragem. Ressoa um grito; os rápidos remos cortam simultaneamente a onda salgada, que estremece: em breve, surgem todos à nossa vista. Ouve-se uma vibrante voz: “Filhos dos gregos, ide, salvai nossa pátria, vossas mulheres e filhos, os tempos de vossos deuses e os túmulos de vossos ancestrais; é por todos eles que hoje deveis combater”. Surpreendidos, os persas responderam num murmúrio. Impossível evitar o combate. Já as proas de bronze se chocavam; um navio grego, iniciando a abordagem, despedaça o equipamento de um barco fenício; a seguir, a confusão. Nossa frota agüenta o primeiro encontro; porém, os navios, numerosos demais, compridos no estreito, manobram dificilmente, sem poder socorrer-se; entrechocado-se os esporões de ferro; partem-se os remos. Os gregos, peritos na manobra, atacam-nos por todos os lados, afundando-os; o mar desaparece sob os destroços e os mortos; as praias e os rochedos cobrem-se de cadáveres. Em breve, toda a frota dos bárbaros põe-se, desordenadamente, em fuga. Nossos infelizes marinheiros, como atuns dispersos do cardume, ou peixes despejados da rede, são abatidos a golpes de remos e bancos. Gritos e gemidos ecoam na praia. Finalmente, a noite, nos furta o olhar do vencedor. Não, dez dias inteiros não bastariam a pormenorizar tal perda. Sabe apenas que jamais tantos homens pereceram num dia. Atossa Ah, céus. Que dilúvio de males inunda a Pérsia e a raça inteira dos bárbaros.

Mensageiro

O que ouviste é apenas a metade: muito maior calamidade desabou sobre nós.

Atossa

E qual infortúnio mais cruel poderíamos experimentar? Explica-te. Que desgraça ainda mais esmagou nosso exército? Mensageiro A nata dos persas, toda aquela juventude tão distinta pelo nascimento, a coragem e a dedicação do rei, pereceu miseravelmente, sem glória. Atossa Que ouço, amigos? Ai de mim! Horrendo golpe. Que adverso destino lhe fez sofre morte ignominiosa? Mensageiro Há, em frente de Salamina, uma pequena ilha, perigosa para os navios, e freqüentada por Pã, o deus amigo das danças. Para lá enviou Xerxes seus jovens guerreiros, a fim de dar morte aos gregos, que, após a derrota ali se refugiassem, e socorrer os persas que o mar, porventura, aí lançasse. Lia mal o futuro; pois, assim que os céus, na batalha naval, deram vitória aos gregos, estes, armados de bronze, desembarcaram na ilha, cercando-a de modo a não permitir a fuga de nenhum dos nossos; a princípio, assaltaram-nos com uma saraivada de pedras e dardos; depois sobre eles caindo, num furioso corpo a corpo, despedaçaram-nos à espada, degolando-os até o último. Xerxes instalado num outeiro, de onde descortinava todo o exército, testemunha dessa hedionda carnificina, dilacera as vestes, lançando pungentes gritos e, dando sinal de retirada às tropas de terra, fugiu precipitadamente. Eis a desgraça que ainda tendes a chorar.

Atossa

Sorte inimiga. Quão bem ludibriaste os persas. Quão caro a meu filho custa o castigo de Atenas. Não bastavam já tantos bárbaros tombados em Maratona. Era ainda preciso que ele, na esperança de vingá-los, atraísse sobre nós esse dilúvio de desastres. Mas saberás porventura para onde se retiraram os navios salvos da destruição?

Mensageiro

Os capitães dos navios restantes fugiram em desordem à mercê dos ventos. Das tropas de terra, uma parte, devorada pela sede, pereceu na Beócia; os outros, fugindo sem tomar fôlego, atravessaram a Fócida, a Dórida e os países vizinhos do golfo Melíaco, as regiões regadas pelas salutares águas de Sperchius. De lá, desprovidos de víveres, atravessamos primeiro a Acaia e a Tessália, onde a maior parte morreu de fome e sede – pois ambos igualmente nos perseguiam. A seguir, a Magnésia, a Macedônia, onde passamos o Áxio, os pântanos de Bobes, o monte Pangeu e a Hedônia. Aí, permitiram os céus que uma geada extraordinária gelasse, à noite, as águas límpidas do Estrimom. A tão inesperada ventura, até os mais incrédulos, forçados a reconhecer a intervenção dos deuses, se prostrarem diante do céu e da terra. Após longa e fervorosa prece, o exército avançou pelo gelo. As tropas que conseguiram passar antes do amanhecer, foram salvos; mas quando o luminoso e flamejante disco derreteu o gelo, os soldados precipitaram-se no rio. Felizes os que logo se afogaram. Os poucos que conseguiram escapar ao perigo, após percorrerem com grande dificuldade a Trácia, regressaram, em fuga, aos lares paternos. Assim, gemente, a Pérsia, por muito tempo, lamentará a flor de seu império. Essa é a verdade, embora em meu relato haja omitido várias das circunstâncias da catástrofe com que nos trucidaram os deuses.

Corifeu

Invencível destino. Que funesto é teu peso sobre a raça inteira dos persas, hoje esmagados por teus golpes.

Atossa

Ó infeliz de mim. Ó exército aniquilado. Verídicas visões noturnas, que tão claramente me anunciastes tais desgraças. E vós, que tão mal a interpretastes. Seguirei, no entanto, vossos conselhos. Vou, primeiro, tentar aplacar os deuses; o futuro, porém, talvez se nos depare mais favorável. E vós, ó Fiéis, hoje é que poremos a prova a vossa fidelidade. Consolai meu filho, se ele chegar antes que eu volte; acompanhai-o ao palácio; esforcemo-nos para que ele com seu desespero nada mais acrescente aos nossos males.

Coro

Ó soberano Zeus. Destruíste hoje o numeroso exército dos soberbos persas. Mergulhaste Ecbatana e Susa na noite do luto. Ah, quantas mulheres unidas por acerba dor, dilacerando com as frágeis mãos os seus véus, o seio inundarão de úmidos prantos. Tristes e ternas esposas. Doravante insaciáveis de lágrimas, reclamareis, ao macio leito, testemunhas das primícias de vossos prazeres, os jovens esposos desaparecidos. Ai de vós. Sua morte arranca-nos os mais amargos lamentos. Assim geme a Ásia privada de seus homens. Xerxes os levou. Ah, céus. Xerxes os perdeu. Ah, deuses. O imprudente Xerxes tudo confiou a frágeis navios. Porque outrora não reinou sempre invencível, Dario, o monarca adorado em Susa? Ter-se-ia evitado esta sede de desforra. A infantes e marinheiros, negros barcos alados carregaram, quais bandos de sombrios pássaros. Ó céus, os navios os perderam. Ah, deuses; os navios os traíram na abordagem. E pela mão dos jônios. Apenas nosso rei escapou pelas planícies geladas e ásperos caminhos da Trácia. Precoces vítimas da morte, ai de nós, terrivelmente abandonadas. Ai, deuses, nas praias de Cicreia. Chora, Ásia, dilacera o peito. Que o grito de tua dor se eleve aos céus. Ergue a triste voz, teus pungentes lamentos. Joguete das vagas, ai de nós. Pasto, ai deuses, dos mudos filhos das salgadas ondas. Os pais vertem lágrimas pelos filhos; os velhos deploram os golpes das fadas, ai de nós, tudo se transforma em dor. A Ásia já agora, não mais obedecerá ao persa. não mais pagará o tributo imposto por poderoso senhor. Não mais verá o trono súditos prosternados a adorá-lo. Desvaneceu-se a força de nossos reis. não há mais freio para conter os murmúrios, pois a língua dos povos se desencadeia assim que se parte o jugo que os domava. Nosso povo já não existe. Regada por seu sangue, a ilha de Ajax é hoje a tumba do poderio persa.

Atossa

Amigos. A experiência nos ensina que o homem bafejado pela sorte, crê que o vento da fortuna soprará eternamente; porém, assaltado pelo vendaval do infortúnio, com tudo se alarma. Assim, pois, ora tudo me espantava; tudo me anunciava adversos deuses. Um grito, não de vitória, retumba em meus ouvidos. Fatal efeito de minha consternação. Aqui venho do meu palácio, sem carruagem nem a pompa que dantes me acompanhavam. Trago ao pai de Xerxes libações propiciatórias para aplacar os manes: alvo e doce leite de uma novilha sem mácula; dourado mel destilado pela obreira que suga as flores; água cristalina de uma fonte virgem; beberagem sem mistura, produto de uma agreste mãe e presente de uma vinha antiga; adorante fruto da prateada oliveira, árvore que em toda a vida, jamais se despoja da folhagem; enfim, guirlandas de flores brotadas de fecunda terra.

Caros amigos.

Possam vossos hinos aos manes acompanhar estas dádivas; evocai a sombra do divino Dario, enquanto estas libações, derramadas na terra a impregnarão, penetrando até as subterrâneas moradas dos deuses infernais.

Coro

Venerável rainha dos persas, faze correr as libações até as profundezas da terra, enquanto nós em nossos hinos, pediremos aos soberanos dos mortos, que, se de sua sombria morada, nos sejam propícios. Subterrâneas e santas deidades. Terra, Hermes, e tu, rei dos infernos. Devolvei ao dia a alma de Dario. Se há remédio para nossos males, só ele no-lo poderá ensinar. Poderás ouvir-me tu, rei da eterna memória, príncipe igual aos deuses? Ouves os doloridos lamentos de minha voz bárbara chora a teus ouvidos? Em pungentes gritos a ti envio o relato de nossas tremendas desgraças. Na tua infernal mansão tu por certo me ouvirás. Ó terra. Ó príncipe dos manes. Permiti à gloriosa sombra de um deus outrora adorado em Susa, deixar vossas moradas. Devolvei ao dia um herói, jamais igualado na Pérsia.

Caro Príncipe. Caro túmulo, que encerra tão caros despojos. Ó Hades, árbitro dos mortos, devolve-nos Dario, ai de nós. Soberano sem par. Ele que jamais perdeu seus soldados em guerras de extermínio. Inspirado pelos deuses o julgavam os persas; e eles, sem dúvida, o inspiravam, pois que suas armas foram sempre triunfantes. Ó rei, nosso antigo rei. Vem, sai, aparece no alto deste monumento. Faze resplandecer a nossos olhos o fulgor de tua tiara púrpura de teus coturnos. Vem, ó pai de teu povo, irrepreemsível Dario. Vem ouvir as inauditas desgraças. Aparece, ó meu senhor do meu senhor. Densas trevas envolveram teu império. Pereceu toda a nossa juventude. Vem ó pai de teu povo, irrepreensível. Ai de nós, ai de nós. Ó tu, sempre chorando por teus súditos. Que crime, ó meu príncipe, sobre este povo que foi teu, atrai tão redobrados flagelos? Nossa frota, destroçada, já não existe.

Sombra

Ó vós, fiéis, filhos de Fiéis. Companheiros de minha juventude, generosos anciãos. Dizei-me, pois, que males afligem Susa? A terra, ferida, gemeu, entreabriu-se. Estremeço ao ver minha esposa em prantos junto ao meu túmulo, ai de mim. Não pude rejeitar suas oferendas propiciatórias. Porém, vós também chorais ao pé da tumba. Dentre as sombras da infernal mansão, atendi às vossas lamentosas invocações. É difícil sair dos infernos; os deuses subterrâneos sabem melhor apanhar que devolver a presa. Cederam, todavia, à minha súplica e aqui estou. Mas apressai-vos, que não posso demorar-me mais do que o permitido. Que nova desgraça abate os persas?

Coro

Não ouso encarar-te nem responder-te. O antigo respeito me enche de temor na tua presença.

Sombra

Cedendo a teus rogos, subo dos infernos; não prolongues, abrevia teu discurso; deixa o vão respeito, explica-te.

Coro

Temo obedecer-te. Receio falar-te, pois a narração é horrenda aos ouvidos de teus súditos.

Sombra

Já que o temor os vence, contém tu, minha antiga esposa, companheira de meu leito, lágrimas e suspiros, e fala, sem nada encobrir. O infortúnio é a partilha do homem; enquanto dura a vida, sobre a terra e no mar o experimentamos.

Atossa

Ó tu, dentre os mortais o mais afortunado. Enquanto viram teus olhos o esplendor do sol, semelhante aos deuses, foste, em tua prosperidade, o invejado dos persas; hoje, invejo-te por estares morto e não haveres presenciado o abismo de nossas desventuras. Caro Dario, em poucas palavras o saberás: o poderio persa foi aniquilado. Sombra Como? Pela peste ou pela guerra civil?

Atossa

Não; todos os nossos exércitos foram destruídos perto de Atenas.

Sombra

E qual de meus filhos levou para lá a guerra?

Atossa

O impetuoso Xerxes, despovoando assim nosso continente.

Sombra

Por mar ou por terra tentou ele a louca empresa?

Atossa

Por terra e mar; seu exército duplo pressentia dupla frente. Sombra E como pode tão numeroso exército de terra atravessar o mar?

Atossa

Uma parte de barcos sobre o estreito de Heles serviu-lhe de estrada.

Sombra

Ousou, pois, Xerxes fechar o amplo Bósforo?

Atossa

Sim; tudo, sem dúvida, motivado por divinos desígnios.

Sombra

Terríveis desígnios, que assim o cegaram.

Atossa

E sofremos hoje as tremendas conseqüências.

Sombra

Mas, afinal, que desastre vos faz derramar tais lágrimas?

Atossa

Destruída a armada, perdeu-se o exército.

Sombra

Como um imenso povo tombou sob o ferro do inimigo?

Atossa

Tombou, ai de mim. E Susa, deserta, chora seus bravos filhos. Sombra Deuses. De que que serviram tantas forças?

Atossa

Pereceram antes da velhice todos os bactrianos.

Sombra

Ó malfadado Xerxes. Que juventude, que aliados perdeste.

Atossa

Dizem que nosso filho, abandonado, só com alguns companheiros...

Sombra

Que lhe aconteceu? Há esperança de salvá-lo?...

Atossa

Sentiu-se feliz em regressar à ponte que unia os continentes.

Sombra

Foi salvo? Está na Ásia?

Atossa

Assim o afirmam, e parece certo.

Sombra

Ah, como breve se cumpriram os oráculos. Por meu filho cumpriu Zeus suas ameaças. Eu esperava que os deuses tardassem; mas quando alguém, por si próprio corra a precipitar sua perda, os césu nisso o consentem. Entrevejo agora males, cuja fonte a louca audácia de meu insensato filho abriu. Quis ele como a escravo agrilhoar o sagrado mar de Heles, o Bósforo destinado a correr livremente. Desnaturou-lhe o curso e, prendendo-o em peias forjadas pelo malho, forçou a dar ampla passagem a seu enorme exército. Simples mortal, julgou-se que loucura, que delírio, superar a Poseidon e todos os deuses. Temo que os tesouros que em meu reinado acumulei, em breve se transformem em na presa do primeiro pilhante.

Atossa

Eis o resultado dos maus conselhos a que deu ouvidos o impetuoso Xerxes. Quantas vezes não lhe diziam que pela guerra, conquistaras para teus filhos imensas riquezas, enquanto ele, sem coragem, limitava suas façanhas a vegetar no palácio, sem nada a acrescentar à herança paterna? Incitado pelas constantes censuras de seus vis aduladores, resolveu, finalmente, marchar contra a Grécia. Sombra De fato, a obra é grande e memorável. Jamais golpe igual desabando sobre a cidade de Susa, assim a devastara, desde que Zeus permitiu a um só homem reinar e estender seu cetro sobre a fecunda Ásia. Medus foi o primeiro a comandar nossos exércitos. Seu filho, cuja prudência lhe guiava a coragem, continuou-lhe a obra. O terceiro foi Ciro, aforunado mortal, que alcançando o império levou a paz a todos os seus súditos. Conquistou a Lídia, a Frígia, subjugou a Jônia, e sua moderação poupou-lhe o ódio dos deuses. O filho de Ciro foi o quarto rei. Depois dele, Mardus, para a vergonha da pátria e deste trono antigo, deles se apoderou; mas, em breve, o valente Artafernes, com a ajuda de seus amigos conjurados, o surpreendeu e matou em seu palácio. Marafis, e em seguida, Artafernes, sucederam a Mardus. Até que eu, finalmente, bafejado pela sorte, reinei e muitas vezes conduzi numerosos exércitos à guerra; porém, jamais fiz sofrer a Susa tão terríveis reveses. Hoje, meu filho, pensa e age como jovem que é, esquecendo meus conselhos. Mas não tenhais dúvida, meus amigos. Eu e todos os meus predecessores custamos bem menos à Pérsia do que ele sozinho.

Corifeu

Que fazer, meu augusto senhor? Como poderá o povo persa recuperar seus dias de esplendor?

Sombra

Não movendo jamais guerra aos gregos; tivésseis embora um exército dez vezes maior que o de Xerxes.

Corifeu

Que dizes? Como assim?

Sombra

Destruindo pela fome os inimigos arrogantes e numerosos.

Corifeu

E se levássemos um exército bem preparado e escolhido com armamento leve

Sombra

Nada adiantaria. Nem mesmo para aquele que ora se encontra em solo inimigo, haverá salvação nem regresso.

Corifeu

Como? Então o exército bárbaro que ficou na Grécia, não atravessou o Helesponto?

Sombra

Voltou apenas a menor parte se, a julgar pelo sucedido, dermos fé aos oráculos, que jamais se cumprem pela metade. Meu filho, apesar da lição, constantemente impregnado de vã esperança, deixou na Grécia tropas de escol; destinada a adubar os campos da Beócia, lá ficaram nas planícies regadas pelo Asope. E ali aguardam mais terrível desastre, digno prêmio de sua sacrílega audácia, não recearam despojar os deuses, queimando seus templos; destruíram os altares e arrancaram dos pedestais as estátuas, que rolaram no chão, igual aos crimes foi o castigos. Porém ainda não terminaram os males. Este é apenas o prenúncio dos infortúnios. Acumular-se-ão nos campos de Platéia montanhas de cadáveres que, mudos, dirão a três gerações de homens, que não se deve aspirar mais do que permite a força humana. A insolência, ao germinar, prepara a espiga da Grécia. Que ninguém, doravante, descontente da Sorte, se arruine em vãs ambições. O severo Zeus castiga a soberba desenfreada. Anciãos, a quem a idade concedeu sabedoria. Possam vossos conselhos convencer meu filho a não mais ofender os deuses em sua arrogante audácia. E tu, terna e respeitável mãe de Xerxes, vai ao palácio, apanha vestes apropriadas para teu filho e corre aos seu encontro, pois que seus magníficos vestidos, rasgados no excesso da dor, estão em frangalhos. Tu é que os hás de consolar; sei que só a ti ouvirá. Quanto a mim, volto ao reino das sombras. Adeus, anciãos. E, embora em meio a desgraças, alegrai-vos na fruição do mundo, pois entre os mortos os bens terrestres nada significam.

(A Sombra de Dario esfuma-se no túmulo.)

Corifeu

Tantas desgraças presentes e futuras esmagam-me de dor.

Atossa

Ó destino. Quanto desespero. Mas é sobretudo ao imaginar a humilhação de meu filho coberto de farrapos, que se parte em meu coração. Vou buscar-lhe já veste condignas; e irei a seu encontro, a recebê-lo . Não abandonarei nas desgraça, o que de mais caro tenho no mundo.

Coro

Grandes deuses. Que sólido e feliz governo tínhamos, enquanto um augusto soberano, irrepreensível, um rei igual aos deuses, o invencível Dario, provendo sabiamente a tudo, reinava neste império. A glória acompanhava nossos exércitos. As leis tudo regiam nas cidades. Na guerra, nenhum desastre, nenhum revés; feliz regresso devolva aos lares nossos soldados triunfantes. Quantas cidades conquistou Dario sem ter que passar o rio Halis ou sair do palácio sequer. Assim se lhe submeteram as cidades marítimas do golfo estrimoniano, vizinha dos campos da Trácia; e aquelas que, longe do mar, no âmago das terras, em vão ergueram seus baluartes. Assim o reconheceram por senhor as cidades que marginam o lago Helesponto, a sinuosa Propôntida, as embocaduras do Ponto, as ilhas vizinhas do promontório, e as costas da Ásia, tais como Lesbos, Samos, fértil em olivais, Quio, Paros, Naxos, Micone, e Andros e Temos, ligadas entre si. Submetera as ilhas mais avançadas nos mares, como Lemnos e a pantanosa ilha de Ícaro. Conquistara Rodes, Cnido e as três cidades de Chipre, Pafos, Solis e Salamina, cuja metrópole hoje faz correr nossas lágrimas. As opulentas e populares cidades dos gregos da Jônia foram também por sua prudência dominadas. Suas hostes e a de seus numerosos aliados formavam invencível força. Hoje, sem dúvida, por influência dos caprichosos deuses, sofremos uma subversão total. Vencidos em terra e mar, nós é que sucumbimos.

(Entra Xerxes com séquito.)

Xerxes

Ai de mim. Desventurado. Que imprevisto, funesto destino o meu. Qual cruelmente insulta a sorte a raça dos persas. O que resta de mim? Dobram-seme os joelhos à vista desses respeitáveis anciãos da minha cidade. Ó Zeus, porque não me sepultaste junto com meus soldados na noite da morte?

Coro

Ó rei. Que é de teu soberbo exército e da honra que regia o império? Onde estão nossos bravos soldados? Todos destruídos por um deus. A pátria reclama, chorando, a juventude que nutriu. Ai de nós,

Xerxes

levou a destruição, com ela sobrecarregando as torvas mansões do Hades. A flor dos guerreiros da Ásia, nossos hábeis arqueiros, milhares e milhares de homens, tudo pereceu. Quão tristemente, ó rei, teve a Ásia que curvar a cerviz.

Xerxes

Ai de mim. Que bela juventude.

Coro

Que terrível golpe ó rei. A Ásia inteira com ele se abateu.

Xerxes

Fui eu, deplorável, malfadado príncipe, ai de mim, fui eu o flagelo de meus súditos e minha ora desolada pátria.

Coro

As saudações que em teu regresso ouvirás serão gritos funestos, horrendo gemidos e o tom plangente de lúgubres cantos.

Xerxes

Dai curso aos gritos e aos prantos. Adverso destino desabou sobre mim.

Coro

Apesar do respeito, a ti erguerei meu gritos. A terra e o mar conspiraram contra esta cidade que lamenta seus filhos. Não sufocarei gritos nem lágrimas. O deus dos jônios protegem os seus navios, arrebatando-nos tudo. Cobriu de nossos destroços uma triste, funesta praia.

Xerxes

Chora teu infortúnio.

Coro

Onde estão teus fiéis amigos? Onde estão os teus sátrapas? Onde estão Farandaces, Suzas, Pelagon, Dotamas? E Agdabates, Psanis, Susiscanes?

Xerxes

Todos mortos. Tombados de um navio Tírio, deixei-os pelas praias de Salamina, entre escarpadas bordas.

Coro

Ó céus. E que foi feito de Fainuco e do valente Ariomardo? Onde estão o príncipe Sevalces e o bravo Lileu?... Menfis, Taribis, Magistres, Artembares e Histaiomas? Responde.

Xerxes

Infortunados. Ai de mim. Todos, no mesmo combate malferidos, ameaçando ainda com o olhar o odiado muro de Atenas, palpitavam no chão.

Coro

E aquele que era para ti o olho fiel e vigilante do império, descendente de Betanoco e de Sésamo? E migabate e Parteu, e o grande Evares? Também os abandonaste? Ah, terríveis são os males de toda a nobreza persa.

Xerxes

Tuas palavras em mim despertam a saudade de meus bravos companheiros; a lembrança de aterrador infortúnio, que me dilacera a alma. Ó sorte adversa. Meu coração. Meu coração ferido estala em profundo clamor.

Coro

Quantos outros ainda temos a lamentar? Onde está Mardes, comandante de dez mil cavaleiros? E Xanto, e o valente Ancares; Scexis e Arsaces, os capitães da tua cavalaria? Digdagates e o audaz Litimno, insaciável de combates?

Xerxes

Todos pereceram. Não foram transplantados em carros cobertos de pendões e acompanhados por cortejo militar; mas lançados a uma morte sem honra, como vis lacaios.

Coro

Ai de nós, ó céus; deuses cruéis. Terrível golpe. Espetáculo digno da deusa da vingança.

Xerxes

É ela quem nos fere, quem duvida?

Coro

Inauditos infortúnios. Inauditos infortúnios... Nosso ímpeto partiu-se contra os jônios. Ó malfadada raça dos persas. Que sorte te esperava em tal batalha.

Xerxes

Um tal exército. Ó infortunado. Como poderei crer em sua perda?

Coro

Não, não é possível. Tal poderio bélico não seria destruído.

Xerxes

Vede então o que dele me resta.

Coro

Bem o vejo, bem o vejo...

Xerxes

Este carcaz...

Coro

É pois tudo o que salvaste?

Xerxes

Este carcaz em que guardava em minhas flechas...

Coro

Triste resto de tal poder.

Xerxes

Já não tenho defensores.

Coro

O jônio então não fugiiu ao combate?

Xerxes

Povo de valentes. Por culpa de sua mão, contemplei incrível desastre...

Coro

Referes-te à derrota da tua armada?

Xerxes

O ódio e o desespero fizeram-me rasgar as vestes.

Coro

Ó deuses, ó deuses, ai de mim...

Xerxes

Frágeis lamentos para tantos males...

Coro

Sim, infindáveis males...

Xerxes

Que nos afligem, alegrando o inimigo.

Coro

Quebradas foram nossas forças.

Xerxes

Privado estou de meus fiéis guardiães.

Coro

De teus amigos, tragados pelo mar.

Xerxes

Chora tuas desgraças, dirigi-te ao palácio.

Coro

Ó infortúnio. Ó miséria.

Xerxes

Possam teus gritos responder aos meus.

Coro

Ai de nós. Ai de nós. Ai de nós.

Xerxes

Horrendos males.

Coro

Ah, céus. Sucumbo à minha dor.

Xerxes

Bate no peito, não pares de lamentar-te.

Coro

Inundando estou de pranto.

Xerxes

Possam teus gritos responder aos meus.

Coro

Ó meu senhor. Como poderie eu deixar de fazê-lo?

Xerxes

Possa a tua alma estalar em soluços. Ai de mim, três vezes, ai.

Coro

Ai de nós, três vezes, ai. Torturando a face, acompanharei meus gritos.

Xerxes

Bate no peito, entoa cantos fúnebres.

Coro

Ó dor, ó dor.

Xerxes

Arranca, não poupe tuas alvas barbas, que pereceu nosso exército.

Coro

Com ambas as mãos, ó lamentável desastre.

Xerxes

Faze estalar tua alma em lancinantes gritos.

Coro

Agudos gritos, lançarei.

Xerxes

Dá força às mãos, lacera as vestes.

Coro

Ó dor, ó dor.

Xerxes

Arranca o cabelo, que pereceu nosso exército.

Coro

Com ambas as mãos, ó lamentável desastre.

Xerxes

Faze tua alma transbordar de pranto.

Coro

Inundados estão meus olhos.

Xerxes

Possam teus gritos responder aos meus...

Coro

Ai de mim, ai de mim, ai de mim.

Xerxes

Chorando, gemendo, dirigi-te ao palácio.

Coro

Ai de mim ó persas. Ó dor.

Xerxes

Possam nossos ais impregnar toda a cidade.

Coro

Choremos sim, choremos, que a Pérsia o testemunhe. Xerxes Avançai lentamente; exalai gritos de dor. Coro Ai, ai, solo da Pérsia que pareces gemer a nossos passos.

Xerxes

Ai, por todos os que tombaram, por todos os navios perdidos.

Coro

Com tristes lamentos te acompanharei.

 

FIM